
Em uma noite de celebração, uma misteriosa mulher ruiva surge da floresta e encanta o Conde, sendo proclamada sua nova Condessa. Enquanto os nobres desconfiam de sua presença, o banquete se transforma em uma armadilha sombria, revelando quem eram os verdadeiros caçadores.
Um rústico e antigo salão de banquete estava celebrando uma grande caçada. Paredes de pedra maciça que fazem questionar como tamanha fortaleza pode ter sido construída em tempos mais arcaicos. Uma comprida e larga mesa no centro do salão expondo um banquete com um enorme animal assado, um grande cervo cujos chifres passavam de mão em mão como uma relíquia antiga. Pessoas com roupas elegantes de tecidos coloridos e bordados elaborados celebravam mais um ano de um bom clima e uma boa colheita. Homens a se vangloriar de seus tributos ao Conde de Coeur, mulheres jovens admirando os bravos caçadores, enquanto as mais sábias se reuniam em um canto mais isolado para tratar de assuntos profundos (do tipo que os maridos nos próximos dias vão pensar que as ideias vieram deles).
Um assunto peculiar, entretanto, estava distraindo as negociações das influentes damas do condado.
— Dizem que ela veio de dentro da mata… do mais absoluto além!
— Ouvi um dos meninos contar que ela estava com roupas sujas de camponesa, não sei se acredito nessa história de fugitiva…
— Mas meu marido disse que nunca viu uma beleza como aquela! E disse em um tom assustado, não admirado.
— Não é à toa que não ficou ofendida com o comentário.
— Estou com um mal pressentimento, os cavalos estavam extremamente agitados no caminho para cá.
O som da pesada porta de madeira do salão sendo aberta calou quaisquer comentários que viriam a seguir, um servo se curvou ao sinalizar com a mão a entrada de uma mulher. O salão lentamente se silenciou a cada passo dela, os presentes se sentindo vidrados por uma aura que não sabiam como explicar.
A primeira coisa à vista é seu notável cabelo de um vermelho estranhamente natural. Seu olhar profundo parecia prender como insetos em uma teia de aranha quem fosse corajoso o suficiente para encará-la. As vestes simples, provavelmente o que encontraram mais rápido possível a pedido do Conde, faziam com que sua aparência tivesse ênfase ainda maior de sua energia mística. A luz das velas e tochas parecia tremular de um jeito diferente quando ela passava perto.
O Conde foi o primeiro a sair de seu estupor:
— Minha cara, seja bem-vinda!
Com leveza ele se afasta de seus companheiros para recebê-la de braços abertos. A confusão de alguns cresceu com a tamanha familiaridade com a qual ele estava tratando uma até então desconhecida que surgiu da floresta:
— Que alívio estar com roupas secas, estou profundamente grata, querido Conde.
O comentário fez o mesmo abrir um grande sorriso, ao ponto de que ao menos duas matriarcas de famílias há gerações leais ao Conde suspirarem profundamente, já conhecendo esse enredo, e ao menos uma delas parecia procurar o marido pelo salão para irem embora.
— É um grande prazer tê-la aqui, é também um momento glorioso para declarar que minhas preces foram ouvidas, e encontrei uma candidata à altura de ser a Condessa. Por favor, meu amor, se apresente!
— Amor?!
A confusão foi expressada no rosto de cada um, porém ninguém teve coragem de vocalizar:
— Sou AnaBella Le Mangeur, é um enorme prazer conhecer todos vocês.
As palavras eram doces como mel, mas causavam um calafrio na espinha, um instinto profundo dizendo para sair dali antes que fosse tarde. A noite estava surgindo com a lua trazendo luz ao céu, e criando sombras profundas através das janelas do salão.
— Meu senhor… — disse engolindo seco seu sobrinho — nunca ouvi falar da família Le Mangeur. Poderia nos elucidar?
O Conde o encarou como se fosse um tanto ofensivo e absurdo ele perguntar isso, mas respondeu.
— Alguns dias atrás me encontrei desolado, buscando uma iluminação no altar da igreja. No silêncio da noite, um anjo veio até mim em sonho, declarando a chegada de uma escolhida. Perguntei então “como vou saber quem é ela?” e o anjo disse: “a cor de fogo de seus cabelos vai lhe delatar”. E assim, a encontrei nesta manhã, durante a caçada, inocente como um coelho, perdida e confusa na mata, tal qual um anjo caído.
— Meu caro Conde, você não pode estar falando sério. Ela é uma mera camponesa?!
Uma das matriarcas se aproximou com seriedade, seus anos de experiência têm mais peso que o título de um jovem Conde.
— O que…? Ah sim, afirmo a vocês que tudo isso é verdadeiro.
AnaBella sorriu com leveza, e o Conde apenas inflou o peito mais ainda com isso. Era como ver um pavão abrindo a cauda.
— Nunca vi criatura tão pura. Jamais duvidem de mim. Ela foi enviada pelos céus. Por favor, acolham sua nova Condessa!
— Condessa?!!
Ao menos uma senhora suspirou alto, mas o resto soube se conter. Um dos lordes sussurrou desculpas enquanto puxava a esposa pelo braço para um canto do salão. Um dos caçadores, amigo de infância do Conde, deu voz ao sentimento geral:
— Você sabe muito bem que nenhuma Condessa foi escolhida fora das antigas casas! Isso é uma traição, você sendo o Conde ou não!
A matriarca, aproveitando a oportunidade, acrescentou:
— Você estava prometido à minha sobrinha, como pode fazer desfeita de nossa lealdade desta maneira! Isso é um absur—
— BASTA!
O Conde de repente gritou, então olhou ao redor por alguns segundos, parecendo perdido. AnaBella apertou gentilmente seu braço, se enganchando ao seu lado, e o brilho em seu olhar retornou tão rápido quanto sua eloquência:
— Perdão, mas preciso lhes pedir compreensão. Este é um ato divino, não apenas um mero capricho, esta moça foi enviada dos céus!
Enquanto ele falava, o ar parecia ficar mais denso ao seu redor, um estranho cheiro adocicado surgiu.
— Se vocês têm algo a protestar, é tarde demais! Agora, peço que acolham sua nova Condessa, e que este assunto se encerre aqui!
O caçador e a matriarca se entreolharam, e se afastaram em silêncio com um gosto amargo na boca. Ao retornar ao seu seleto grupo, a matriarca e suas companheiras começaram a cochichar.
— Aquela ali não me engana, não passa de uma golpista.
— Como ela fez para convencer o Conde de um absurdo desta magnitude?
— Aquele rosto inocente não é de uma menina, mas sim de um lobo em pele de cordeiro!
Frustradas, se contentaram em esbravejar sobre a nova Condessa entre si.
Os homens retornaram animados a seus assuntos, pois dificilmente iriam se sentir alarmados com apenas mais uma mulher bonita, porém o caçador se aproximou de seu escudeiro ainda com uma expressão tensa.
— Você sabe de alguma coisa? O que os servos disseram?
— Estou tão surpreso quanto você, meu senhor, mas admito, ouvi alguns servos discutindo após a caçada que haviam encontrado uma moça. Jamais imaginei que seria assim.
— Não havia nada de estranho nos relatos?
— Não, meu senhor, na verdade havia uma certa alegria em terem encontrado a moça, quer dizer, Condessa. Afinal, com tantos desaparecimentos sem nenhuma pista, se uma pessoa apareceu, quantas mais podem estar apenas perdidas?
O caçador bebeu um lento e longo gole de vinho, e se absteve de observar de longe. Todos pareciam querer manter distância da Condessa, exceto por três jovens que foram corajosas e curiosas demais para resistir.
— De onde você veio?
— Seu cabelo é dessa cor de verdade?
— Você está noiva do Conde?
AnaBella riu enquanto respondia erguendo a mão esquerda, o anel com o brasão do Conde de Coeur reluzindo, artefato que apenas a Condessa poderia usar.
— Eu já sou a Condessa de vocês, minhas queridas.
— Ó céus, como não soubemos do casamento!
— Mas você não apareceu esta manhã? Como já se casaram?
— O padre concordou com algo tão repentino?
— Devido à natureza… mística de nosso encontro predestinado, não havia como um homem do manto ir contra a vontade de sua divindade, não acham?
As três jovens se entreolharam um tanto encabuladas. AnaBella olhou de relance para as grandes janelas, o céu já escurecido e a lua branca e brilhante se erguendo no horizonte.
— Hoje é o dia de sorte de vocês, minhas queridas, é uma lua cheia.
— Sorte?
Mesmo um tanto envergonhadas, as três riram pois, afinal, parecia que estavam conquistando a afeição da nova Condessa.
— Venham.
— Para onde?
— Meu quarto, queridas.
— Lá em cima… nos seus aposentos, Condessa?
— Hoje vocês irão conhecer o meu segredo.
— É claro, Condessa!
As três se apressaram para fora do salão, animadas com a possibilidade de conquistar algum favor para suas famílias. A Condessa já andou mais lentamente, ao passar por um servo desajeitado na porta, acenou com a cabeça e seguiu pela escadaria até o andar superior.
Ao topo da escada AnaBella tomou a frente, guiando as três jovens até uma grande porta ornamentada com arabescos dourados, uma madeira negra antiga deixava claro que aquela porta, e todas as demais da fortaleza, eram muito pesadas e distintas. A Condessa sorriu com as expressões admiradas das moças, e com apenas uma mão abriu a porta, empurrando com leveza.
— Céus, como abriu esta porta assim?
— O que quer dizer, querida?
— Sem nenhum servo, essa porta deve pesar bastante!
— Ah… É apenas aparência, a porta na verdade é bem leve, os servos devem estar… por aí.
A interação foi estranha, mas não o suficiente para distrair as garotas de seu propósito, e entraram sem hesitação no quarto. Sua ansiedade e curiosidade logo foi substituída por uma sensação profunda de que algo estava de fato errado.
— Que escuro!
Um calafrio subiu a espinha, uma das meninas se virou instintivamente, mas a Condessa estava bloqueando qualquer chance de saírem.
— Que frio….
— Condessa, o que está acontecendo?
— Ai! Alguma coisa me espetou!
— Acalmem-se, garotas, vai doer só uma vez….
Antes que pudessem pensar a respeito, a porta se fechou pesadamente.
Enquanto isso, no salão a celebração seguia normalmente, o quanto ainda fosse possível. Aproveitando a oportunidade de falar com o Conde sozinho, o caçador se aproximou dele:
— Meu senhor, podemos falar?
O Conde se virou, o encarou por alguns segundos, como se estivesse tentando se lembrar quem ele era, então disse:
— Mas é claro, meu amigo….?
— Henrique.
— Sim, sim! Henrique, meu caro! Venha cá, diga o que lhe perturba!
O Conde o guiou para frente de uma das grandes janelas do salão, a luz branca da lua parecendo sobrenatural em intensidade naquela noite.
— Meu senhor, devo insistir que repense a situação sobre a…. Condessa!
Ao mencionar a Condessa, o Conde imediatamente mudou de postura, ficando agressivo.
— Eu já deixei claro que não devo ser questionado sobre isso!
— Escute-me, há algo errado aqui, você não é assim!
— Se continuar insistindo, vou mandar lhe retirarem daqui mesmo que força seja necessária!
O caçador, frustrado, saiu pisando duro, indo em direção à porta. Um dos músicos parecia estar passando mal pois seu instrumento estava terrivelmente desafinado, e ao tentar sair do salão, o servo desajeitado o impediu:
— Sinto muito, mas ninguém deve deixar o salão até o retorno da Condessa!
— Quem você pensa que é para me impedir?!
Antes que o caçador pudesse erguer a mão, o servo em um movimento tão rápido que sequer foi capaz de acompanhar agarrou seu pulso com tamanha força que ele não soube reagir. Olhando em seus olhos disse:
— Você não irá sair daqui hoje, entendeu?
— …Sim… eu entendi.
— Ótimo.
Em um instante, o servo estava novamente posicionado perto da porta, e o caçador um tanto grogue voltou para perto de seu escudeiro, que preocupado passou a lhe oferecer água pensando que seu mestre estava meramente bêbado.
Alguns outros servos inundaram o salão carregando bandejas de comida e bebida, e ninguém pareceu se importar com a quantidade exagerada de empregados naquela noite, afinal era um banquete do extravagante Conde. A maioria se posicionou perto das paredes como se fossem parte da decoração, outros permaneceram circulando servindo bebidas. Alguns minutos depois, uma por uma, as garotas apareceram novamente sorridentes e um tanto pálidas.
Tentando em vão disfarçar os risos, como se soubessem de uma piada que ninguém mais entende, as três se espalharam pelo salão dançando e rodopiando. O pai de uma delas tentou se aproximar para repreender, mas a moça desviou com tamanha facilidade que o deixou envergonhado de tentar novamente.
A Condessa voltou ao salão e o servo desajeitado se aproximou imediatamente:
— Minha senhora, está tudo pronto.
— Ótimo, e quanto à limpeza?
— Só restam os que estão no salão.
— Muito bem, vamos ensinar a etiqueta correta de um banquete para minhas jovens pupilas.
O servo se curvou, e silencioso fechou as portas do salão. A Condessa ergue uma mão e estala os dedos. Todas as velas e tochas se apagam, e um breu recai sobre o lugar.
— O que está acontecendo?
— Foi o vento?
O Conde sentiu as mãos o puxando, ao olhar para trás, olhos brilhantes o encararam como um lobo prestes a atacar um cordeiro. O grito ficou para sempre preso em sua garganta.
Uma cacofonia foi iniciada, gritos e suspiros abafados, sons de vidro quebrando e cadeiras sendo arrastadas. Por alguns minutos, o caos reinou na escuridão, então lentamente, o silêncio ensurdecedor cresceu e tomou conta do salão de banquete.
A matriarca nunca chegou até a janela.
O caçador pela primeira vez sentiu na pele o que é estar do outro lado da flecha.
No fim, descobriram tarde demais quem realmente era a presa.
Quando um estalo de dedos novamente ecoou pelo salão, revivendo todo fogo, tudo estava carmim.
— Sejam bem-vindos à nova base de nosso clã! E deem as boas-vindas a suas novas irmãs!
